as big techs são as vilãs
o ponto aqui não é descobrir que o Vale do Silício ficou militarizado, mas quando foi que essa galera deixou de sentir que precisava esconder isso
Faz algum tempo que as grandes empresas de tecnologia – essas que colocavam pufes coloridos no escritório, serviam comida grátis, diziam que estavam conectando o mundo e prometiam tornar a informação acessível para todo mundo –, simplesmente desistiram de tentar parecer legais e descoladas.
Durante décadas, o Vale do Silício construiu a imagem de jovens inventores que trabalhavam em garagens e construíam produtos que não eram mais só mercadorias, eram uma promessa de futuro. Os executivos não eram capitalistas, eram visionários.
Hoje, a história é outra. Empresários se alinham publicamente a Donald Trump sem pensar duas vezes; Meta, Google e OpenAI têm contratos, produtos e parcerias com a máquina de guerra dos estados unidos; Tem até modelo de inteligência artificial sendo impedido de ser usado por pessoas que não sejam estadunidenses.
O ponto aqui não é denunciar que o Vale do Silício ficou militarizado, mas quando foi que essa galera deixou de sentir que precisava esconder isso.
a ideologia que vendia computadores como libertação
Nos anos 90, enquanto a internet comercial começava a se espalhar, os pesquisadores Richard Barbrook e Andy Cameron deram um nome à visão de mundo que predominava nas empresas de tecnologia: ideologia californiana.
Era uma mistura de desconfiança de qualquer regulação estatal com crença no livre mercado, e a figura do empreendedor genial e do “faça você mesmo”. A promessa era que a tecnologia libertaria o indivíduo tanto do governo quanto das grandes instituições. A internet supostamente seria uma praça pública, um mercado e uma comunidade ao mesmo tempo. Todo mundo poderia falar, criar, empreender e enriquecer – sem transformar as relações de propriedade. Não seria necessário disputar o poder político nem reorganizar a produção. Bastaria conectar mais pessoas, criar mais empresas e deixar a inovação circular 🤪
E essa ideologia se tornou basicamente a cultura da computação e da tecnologia que os estados unidos exportou pro mundo inteiro. Essas big techs (que ainda não eram tão big assim) não vendiam só computadores e softwares, vendiam uma promessa de futuro onde as empresas de tecnologia não seriam corporações comuns. Seriam comunidades de inventores capazes de resolver problemas que governos lentos, universidades burocráticas e empresas tradicionais não conseguiam resolver.
Só que esse mito do empreendedor independente nunca correspondeu à história material da tecnologia.
a tecnologia é socialmente produzida e privadamente apropriada
Nenhuma tecnologia nasce apenas da inteligência de uma pessoa ou da coragem de um empresário. Ela é fruto do trabalho acumulado: pesquisa científica, infraestrutura pública, conhecimento técnico, cadeias industriais, mineração, logística, energia e o trabalho cotidiano de milhões de pessoas.
Plataformas digitais funcionam porque trabalhadores constroem cabos, moderam conteúdo, rotulam dados, produzem chips, mantêm centros de processamento e geram as informações que alimentam algoritmos.
Então, não, a internet não nasceu numa garagem. Foi só com muito financiamento público, pesquisa financiada pelo Estado e, principalmente, projetos militares que a indústria tecnológica cresceu.
os estados unidos sempre tiveram planejamento estatal, mas preferiam chamar de orçamento militar
o livre mercado sempre precisou do Estado
Nunca existiu um Vale do Silício humanizado que, de repente, foi corrompido pela guerra. O que existia era uma narrativa capaz de esconder essa relação, mas que parece ter chegado ao fim.
Hoje, a aproximação com o aparato militar se tornou parte do posicionamento público dessas empresas. Executivos que antes tentavam pagar de progressistas passaram a buscar uma relação explícita com o governo Trump, a defender nacionalismo tecnológico e deixaram claro que a distância com o Estado era mais negociável do que parecia.
Mas a forma dessa relação mudou, sim. As big techs agora controlam infraestruturas digitais que o Estado precisa pra funcionar. Então, quando toda guerra depende de processamento de dados, conectividade e inteligência artificial, as empresas que administram essa infraestrutura deixam de ser apenas fornecedoras e podem se apresentar diretamente como parte da capacidade militar do Estado.





Tenho muito interesse nessa relação da tecnologia x Estado x sociedade e como estamos nos tornando refém delas. Teria bibliografia pra indicar?