bots e inteligência artificial nas eleições
o avanço tecnológico que sustenta o mercado de IA é o mesmo que vai sustentar campanhas de desinformação em 2026
2026 é ano de eleição presidencial no Brasil, e a experiência de 2022 já deixou bem claro que bots são parte estrutural dessa disputa na internet.
O efeito mais perigoso disso não é a propaganda explícita, mas a impressão que se cria de que existe muito mais gente sustentando opiniões absurdas do que realmente existe. É difícil acreditar que tem tantas pessoas concordando com certos absurdos que circulam por aí. Basta abrir os comentários de qualquer vídeo político pra encontrar um volume assustador de gente engajando e reforçando discursos de ódio, muitas vezes de forma coordenada demais para ser espontânea.
Um relatório recente da Cloudflare mostrou que 57% do tráfego global na internet é gerado por robôs, não por humanos. Navegação automatizada já existe há muito tempo, claro, mas agora estamos num momento de inflexão da história: o tráfego de robôs superou o uso humano, e essa tendência só tende a aumentar.
Os modelos de linguagem aumentaram exponencialmente o impacto dos bots na internet. Ao invés de textos repetidos e fáceis de identificar se foi escrito por uma pessoa de verdade ou não, é possível gerar milhares de mensagens diferentes que sustentam o mesmo discurso.
o avanço tecnológico que sustenta o mercado de IA é o mesmo que vai sustentar campanhas de desinformação em 2026
Nessas eleições, vamos enfrentar um mar de opiniões que parecem diversas pela forma como são escritas, de maneira natural e quase humana, mas que defendem a mesma intenção, ideologia ou programa da extrema-direita.
Faz tempo que a internet deixou de ser projetada como espaço de trocas humanas, se é que um dia já foi, e passou a ser projetada como espaço de reprodução de capital. E quem constrói essa internet hoje são plataformas que lucram com volume de dados, ambiguidade de origem e ausência de responsabilização, independente de quem ou o quê está do outro lado da tela.
Identificar um bot deixa de ser questão de reconhecer padrões repetidos de texto ou faixas de IP suspeitas. A detecção passa a depender de análise comportamental mais profunda, de auditoria de infraestrutura e de decisões de moderação que as próprias plataformas controlam, e que frequentemente não priorizam, porque volume de tráfego, mesmo automatizado, segue gerando valor para o modelo de negócio das big techs. Só que moderar de verdade significa cortar parte do lucro – que já fica na casa das centenas de bilhões –, e nenhuma dessas empresas está disposta a abrir mão disso.
Diante desse cenário, abraçar o derrotismo não é uma opção. Essa luta não está perdida, e a tecnologia não é inevitável. Ela é resultado de escolhas de negócio, e escolhas de negócio se enfrentam com organização da classe trabalhadora.
Para 2026, a questão central não é apenas como vamos lidar com o volume de bots na internet. É quem constrói e sustenta a infraestrutura que os torna indetectáveis, e como devemos responsabilizar essas empresas no nosso país.





Boa noite. Apenas uma dúvida: existem outros grupos relevantes de discussão sobre tecnologia, software, código aberto, pirataria aqui no Substack? Faço essa questão respondendo um texto teu, pequi, porque vim ao Substack muito pilhado pelo conteúdo do Teclas, e achei coerente perguntar se tem mais disso aqui, neste aplicativo. Vi uma newslatter de uma moça que falava de beyung chul han, e uma bibliografia mais interessante que sociedade do cansaço para enteder a Internet. Curti pra caçamba e me lembrei o quão interessante é essa discussão de tecnologia open-source e, vendo uma das recomendações dela, o livro a “A Ideologia Californiana”, fiquei engajado em ir atrás. Toda essa fundamentação anarquista que circula a coisa é muito potente. Onde posso achar mais?
Como combater isso? Bater de frente tentando gerar engajamento com comentário de pessoas parece uma luta perdida. Usar bots, nós mesmos, parece ir contra tudo o que lutamos. Só deixar para lá com derrotismo também não é uma opção.