design e a terceirização do sentimento
não dá pra resolver os problemas da classe trabalhadora só com aplicativos, saas nem bot de whatsapp – mas dá pra lucrar com eles
o ‘presenteia’ , um produto lançado pela crmbonus em parceria com o ifood, teve a experiência do usuário desenhada para ser quase invisível:
um bot no whatsapp acessa sua agenda de contatos, dispara uma notificação avisando do aniversário de alguém e, ainda na mesma interface conversacional, sugere um presente e finaliza a compra.
a entrega é feita sem que você precise sequer perguntar o endereço da pessoa
pra que a mágica da conveniência aconteça, a plataforma precisa cruzar a sua agenda de contatos com o histórico de transações e a base de endereços do ifood. a empresa usa a infraestrutura de dados que já possui (onde seus amigos moram, o que eles comem, quando estão em casa) para garantir que o produto chegue ao destino. para o aplicativo de delivery, o presenteia é a criação de um novo canal de vendas altamente qualificado disfarçado de assistente pessoal.
do ponto de vista sociológico, é o uso do design para transformar um rito social em mercadoria.
em “ensaio sobre a dádiva” , o antropólogo marcel mauss estudou e concluiu que a troca de presentes nunca foi uma mera transação econômica. a obra descreve que as noções de honra e prestígio estão diretamente ligadas ao esforço e à generosidade de quem doa, estabelecendo um jogo de obrigações que são ao mesmo tempo livres e obrigatórias – você até pode recusar um presente, mas alguma vez você já recusou? se sim, teve consequências? é disso que estamos falando.
para mauss, o presente não é um objeto utilitário inerte, mas algo que possui uma substância moral própria. a coisa dada carrega a “alma” de quem doa, ou seja, ao entregar um presente a gente também entrega um pouquinho de nós. é essa mistura entre coisas e pessoas que sela alianças, fortalece relações e garante a comunhão entre as partes.
a interface oferece a terceirização do sentimento
essas empresas criaram uma forma de lucrar com a culpa que você sente por não ter tempo para os seus amigos e quando a inteligência artificial te avisa de um aniversário, ela aciona um gatilho emocional de urgência e o peso da “obrigação de presentear”. a sua rede de contatos deixou de ser um círculo social para se tornar uma base de leads qualificados – estão literalmente monetizando o fato de que você conhece pessoas que fazem aniversário e que você tem cada vez menos tempo livre para viver além de trabalhar.
ao delegar o ato de presentear alguém, a interface esvazia justamente o que confere sentido à relação social. se a importância do presente reside no esforço intencional de entregar uma parte de si ao outro, a automação faz com que o objeto perca a sua intencionalidade e volte a ser apenas uma mercadoria qualquer.
no fim, o presenteia é mais uma prova de que, para o capital, não existe relação humana que não possa ser intermediada, otimizada e transformada em mercadoria. o design aqui não resolve nossa falta de tempo de qualidade com nossas amizades, ele garante que a obrigação de dar e receber continue girando, mas movida a mineração de dados e lucro, esvaziada de qualquer traço de humanidade.
não dá pra resolver os problemas da classe trabalhadora só com aplicativos, saas nem bot de whatsapp com inteligência artificial. mas, pelo visto, dá pra lucrar com esses problemas.
opa, e aí! tudo certo?
esse é o primeiro texto da nova série de artigos sobre design que estou começando, minha ideia não é falar de processos, ferramentas nem ensinar design. aqui eu falo sobre design e política – a política da classe trabalhadora, como diria Zawacki
se você curte reflexões sobre nosso mercado de tecnologia e os impactos do design de experiência em nossas vidas, ou até mesmo não trabalha na área mas gosta de ficar consciente sobre as ferramentas que usamos diariamente, bora trocar ideia ✌️




