o fim da busca do google
ferramenta que ensina a pessoa a não precisar dela dá lucro uma vez só. já a que mantém a pessoa dependente dela, dá lucro pra sempre
Por décadas, o google organizava e ajudava a encontrar o que outras pessoas produziam e mandava você até a fonte. Blogs, fóruns, projetos independentes e comunidades inteiras viviam desse tráfego. Nos últimos anos a gente viu isso mudando e mês passado, no google i/o, a empresa anunciou que o futuro da sua ferramenta de busca não é mais te entregar links.
Agora o que o google propõe é fazer a busca no seu lugar, selecionar os resultados e te entregar tudo pronto, sem “fricção”, com o modo IA virando o padrão da busca. E assim, o google deixa de ser uma ferramenta que você usa pra se tornar uma ferramenta que decide por você.
tem ferramenta que te ajuda, e tem ferramenta que te torna dependente dela
Uma ferramenta que te ajuda é aquela que amplifica a sua capacidade e o que você aprende usando ela fica com você, mesmo depois que para de usar. Um aplicativo de mapa, por exemplo, não é projetado pra te ensinar a se localizar, ele assume essa tarefa por você. E na maior parte do tempo esse pensamento tá certo, ninguém quer ter que estudar qual a melhor rota toda vez que sai de casa.
Só que algumas “fricções” são você pensando. Aprender um caminho, formular uma pergunta, comparar resultados, decidir – cada uma dessas coisas é um atrito, e é nesse atrito que a habilidade se cria. Quando a gente trata todo esforço como defeito a corrigir, a capacidade que a pessoa deixa de usar é transferida pra plataforma. E é pra esse caminho que o google tá indo.
Ferramenta que ensina a pessoa a não precisar dela dá lucro uma vez só. Já a que mantém a pessoa dependente dela, dá lucro pra sempre. Por isso que remover fricção é um princípio de design tão conveniente pro capitalismo: depois de um tempo recebendo a informação já pronta, você não usa o modo IA do google só porque ele é prático, você usa porque desaprendeu pesquisar.
quem não te conhece, que te compre
Dito isso, a empresa que todo o seu modelo de negócios baseado em descobrir qual o melhor produto pra me vender naquele momento quer que eu acredite, de verdade, que ela vai fazer a busca e trazer o que é melhor pra mim, e não pra quem tá querendo me vender alguma coisa? 🤡
Os links patrocinados no topo dos resultados pelo menos são propaganda explícita, tem uma separação visível entre o resultado orgânico e o pago que nos permite ignorar os anúncios. Numa resposta gerada por IA, como que diferencia o que apareceu no resultado por relevância do que entrou porque alguém pagou?
O modelo de negócio do google depende de receita publicitária e isso não muda com a IA, pelo contrário. A pergunta não é “se” a propaganda vai entrar na resposta gerada, mas de que forma ela vai ser implementada e com que nível de transparência.
É óbvio que o google vai alegar que seus sistemas são “neutros” e que a relevância é determinada algoritmicamente. Mas nenhum algoritmo é neutro e, quando o objetivo de negócio é receita publicitária, o algoritmo inevitavelmente inclui esse vetor mesmo que não apareça no código de forma explícita.
Esse problema não se resolve com design ético nem com boa vontade de quem programa, as ferramentas são desenhadas assim porque pertencem a quem lucra com a nossa dependência delas. Quando a gente mudar quem detém os meios de produção, novas formas de construir ferramentas vão surgir.




