o futuro do trabalho no capitalismo digital
desenvolver interfaces bem projetadas e experiências sem fricção é trabalho – e trabalho que, frequentemente, serve para tornar invisível outro trabalho
Uma experiência sem atrito muitas vezes é só uma forma muito eficiente de esconder o trabalho humano. Com alguns cliques você escolhe o pedido, faz o pagamento sem nem precisar abrir o app do banco, acompanha o mapa em tempo real e, pouco tempo depois, sua comida chega quente na porta de casa. Mas o que exatamente acontece por trás dessa jornada tão fluida?
Desde o Breque dos Apps, no auge da pandemia em 2020, a gente acompanha a luta dos entregadores e motoristas de aplicativo (trabalhadores que não tiveram o direito de se isolar e proteger suas vidas). Agora, no dia 14 de abril, esses trabalhadores voltaram às ruas do país mais uma vez pra lutar pelos seus direitos básicos e conseguiram adiar a votação da PLP 152/2025 – um Projeto de Lei Complementar que está sendo encaminhado no Congresso Nacional que não contempla os mais de dois milhões de plataformizados no Brasil.
mas por que trabalhadores uberizados (e a gente também) acham paia o PLP 152?
O problema é que o projeto não tenta responder se esse formato de trabalho é ou não emprego, ele parte de uma decisão anterior, colocada explicitamente no texto e reforçada pelo relator Augusto Coutinho: o trabalho intermediado por plataforma é definido como autônomo e não cria vínculo empregatício.
Isso significa que toda a discussão deixa de ser sobre reconhecer direitos que já existem – na CLT, por exemplo – e passa a ser sobre procurar quais direitos mínimos cabem dentro de um regime de trabalho que já nasce desprotegido.
A partir dessa lógica, o projeto cria uma categoria nova: o chamado “trabalhador autônomo plataformizado”, onde o trabalhador é definido como independente enquanto o próprio texto reconhece e regula formas de controle exercidas pelas plataformas, como: definição de critérios de distribuição de tarefas, sistemas de avaliação e mecanismos de sanção que podem interromper a renda do trabalhador sem qualquer direito à defesa.
Isso levanta uma questão que não se aplica só aos apps de entrega: até que ponto é possível fiscalizar um sistema que continua parcialmente opaco? E como um trabalhador pode contestar decisões algorítmicas sem acesso real aos critérios que as definem?
Quando a gente entra no detalhe da remuneração, essa contradição fica ainda mais descarada. O projeto tenta normalizar uma relação onde o entregador só é pago pelo tempo efetivo da entrega. O deslocamento até o restaurante, o tempo esperando a comida ficar pronta e o retorno ao ponto de espera são simplesmente ignorados – um mecanismo clássico de intensificação da exploração.
quem projeta essas plataformas raramente se envolve no debate, mas deveria
De um lado, essas empresas dependem da flexibilidade total do trabalho para sustentar seu modelo de negócios (feche este quiosque!); de outro, trabalhadores que buscam construir uma vida digna, previsibilidade e proteção social.
Não tem nada de novo nessa luta de classes, mas agora ela é reorganizada pela tecnologia. Desenvolver interfaces bem projetadas e experiências sem fricção é trabalho. Trabalho que, frequentemente, serve para tornar invisível outro trabalho – o do entregador, do motorista, do prestador por demanda.
A plataforma que impede um trabalhador de contestar uma suspensão tem interface, tem regras de negócio, e tem equipes inteiras que a construíram. Sem consciência de classe e organização coletiva, nenhum princípio de desenvolvimento ou de design ético vai resolver um problema que é estrutural.
O que está sendo decidido nesse projeto de lei não é só o futuro dos entregadores, é o futuro do trabalho no capitalismo digital que pode se expandir para outros setores à medida que a economia se torna cada vez mais mediada por plataformas.
É por isso que somos contra o PLP 152/2025 e apoiamos a luta dos trabalhadores de aplicativo. E você, que constrói esses aplicativos, também deveria apoiar.




