tá tudo ficando uma merda – e talvez isso seja bom
existe um sentimento crescente de que os produtos digitais estão em um processo irreversível de piora, mas é exatamente aqui que está a brecha na armadura das big techs
Existe um sentimento crescente de que os produtos digitais estão em um processo irreversível de piora. Essa “merdificação”, termo cunhado pelo jornalista Cory Doctorow, é a expressão máxima das contradições do nosso modelo econômico.
O capitalismo demonstrou ser um sistema incrivelmente competente para o desenvolvimento das forças produtivas, criando infraestruturas robustas, educando o mercado e validando padrões de interação em escala global. Mas ele faz isso em detrimento dos interesses humanos, pois o objetivo central de toda essa inovação nunca foi satisfazer uma necessidade, mas sim lucrar de forma incessante.
Essas empresas até parecem entregar algo realmente promissor no começo, mas assim que atingem um determinado tamanho a sua sobrevivência passa a depender de extrair cada vez mais valor de quem a utiliza e de quem trabalha nela, sacrificando a experiência do usuário e piorando o produto quase que de propósito.
mas é exatamente aqui que está a brecha na armadura das big techs
O que nos impede de ter um modelo de iFood ou Uber focado apenas em remunerar quem realmente trabalha e oferecer um preço justo para quem consome, sem um intermediário sugando bilhões no meio?
A tecnologia para isso já existe.
Soluções como o Popcorn Time e, mais recentemente, o Hydra Launcher, apropriaram-se das melhores práticas de usabilidade consolidadas pela Netflix e das lojas de jogos como Steam e Epic pra entregar um produto tão bom quanto ou até melhor, mas com uma diferença: sem o intermediador parasita que extrai lucro do trabalho alheio.
O foco deixa de ser a acumulação de bilhões para acionistas e passa a ser simplesmente o desenvolvimento de soluções que funcionem de verdade para as pessoas.
O que nos separa de uma internet mais justa e descentralizada não é a falta de capacidade técnica para construir essas plataformas, mas sim a barreira imposta pelo próprio capitalismo. Empresas consolidadas nesses mercados vão lutar com todas as suas armas, desde operar com prejuízo por anos até lobby pesado, pra suprimir qualquer iniciativa que ameace seu monopólio, e a luta passa a ser de organização popular (sempre foi).
O caso do AppJusto é um exemplo disso, uma tentativa de remover o intermediário na economia de entregas mas que precisou encerrar as operações por causa da concorrência desleal praticada por empresas deste setor.
Isso não significa que a gente deve cruzar os braços e abandonar a construção de ferramentas. Pelo contrário. Criar plataformas concorrentes de código aberto geridas por cooperativas de trabalhadores pode ser uma tática brilhante de disputa – desde que feita sob uma estratégia revolucionária de longo prazo.
Em vez de fundar startups isoladas sonhando com o próximo aporte de venture capital, precisamos construir essas ferramentas enquanto militantes organizados.
Fomos ensinados a construir produtos incríveis que, inevitavelmente, são destruídos pelos modelos de negócios que os financiam. O nosso trabalho agora é decidir de que lado dessa luta vamos aplicar o nosso conhecimento.
É possível construir competidores à altura de diversos serviços, simplesmente copiando o modelo de plataforma que já funciona. Sugestões?




