você gosta do que te falaram pra gostar
os padrões de design que seguimos, a estética das interfaces que julgamos como boas, tudo isso foi definido por empresas estadunidenses
assistindo ao vídeo da julia solpin, “por que artistas “críticos” dominam o mainstream?“, fiquei refletindo sobre um paralelo com a área de design. a julia traz uma tese muito bem construída de que comemorar a ocupação de um espaço de autoridade que foi construído no nosso imaginário – como o show do bad bunny no palco de maior audiência dos estados unidos – nos entrega uma falsa sensação de vitória e emancipação.
como se algo só fosse bom quando alcançasse os padrões de sucesso lá de fora.
na leitura dela, o sistema não está sendo rompido por essa presença, ele está apenas absorvendo a estética, a diversidade e a identidade latina para modernizar sua base de consumidores, mantendo a mesma lógica de dominação e apagamento histórico. e eu concordo demais com ela.
enquanto eu assistia, conectei essa crítica com o debate sobre o que nós aqui no brasil, como indústria, consideramos ser um “bom design” e quem foi que construiu esse padrão de qualidade.
na obra “a distinção“, pierre bourdieu destrói a ideia de que o bom gosto é inato. o que você gosta é uma construção cultural e o consumo funciona como um marcador social, um mecanismo usado para classificar pessoas e separar quem pertence de quem não pertence a determinados espaços.
bourdieu explica essa mecânica através do habitus: opiniões, ideias e gostos que incorporamos ao longo da vida que dita o que achamos esteticamente agradável ou, no nosso caso, o que chamamos de design intuitivo.
você gosta do que te falaram pra gostar
os padrões de design que seguimos, as metodologias de desenvolvimento, as interfaces que consideramos boas, tudo isso foi definido por empresas estadunidenses. mesmo existindo vários projetos colaborativos e produção de conhecimento, nosso mercado ainda reproduz muito mais o que vem de fora.
ao replicar o que funciona lá fora pra seguir as boas práticas, o nosso habitus, nosso gosto, foi condicionado a legitimar essa estética como se fosse o único padrão de sucesso e a recusar tudo que fosse diferente.
nós terceirizamos a tarefa de interpretar a nossa própria cultura e raramente questionamos nossas escolhas porque o nosso habitus, nosso gosto, foi condicionado a legitimar essa estética como se fosse o único objetivo a ser alcançado.
quando a gente lembra que praticamente todo site ou plataforma digital que desenvolvemos no brasil depende dos serviços de nuvem e processamento de dados dessas mesmas big techs estadunidenses pra funcionar, fica claro que o mercado de design brasileiro é formado por centenas de milhares de pessoas extremamente capacitadas em gerar valor para empresas de outros países.
apagamento cultural
a maneira como o mercado de design e tecnologia existe hoje tem muito a ver com os primeiros anos da área, lá na década de 90 com a popularização da ideologia californiana.
adotar os mesmos padrões e estruturas visuais pra todo e qualquer contexto fez com que todos os sites e aplicativos parecessem exatamente iguais. hoje, interagir com um aplicativo de banco tem pouca ou quase nenhuma diferença visual de navegação em comparação a um aplicativo de podcast.
ignorar as nuances e complexidades da nossa própria cultura não é fazer um bom design. fazer um bom design é investigar como a nossa sociedade se organiza de verdade e criar experiências que não tentem corrigir o nosso comportamento, mas que sirva aos nossos interesses.
assim como a julia solpin alerta que toda crítica é neutralizada quando se torna um espetáculo inofensivo, tipo o bad bunny falando que a solução pro ódio é o amor , a nossa disciplina de design também se torna só uma ferramenta de otimização da extração de dados e a eficiência do capital estrangeiro.
precisamos definir o que são as nossas próprias boas práticas, baseadas na nossa cultura e no nosso povo. isso inclui também expandir nossas referências e observar como países como a china resolvem seus próprios problemas com interfaces que quebram todas as regras de design que a gente aprendeu a seguir.
nós podemos fazer muito melhor do que apenas reproduzir o que é criado lá fora. quem trabalha no mercado de design brasileiro tem a capacidade – e a responsabilidade – de assumir seu protagonismo e parar de tentar encaixar a nossa complexidade nas experiências projetadas por quem não entende o que é o brasil.






Mais um texto sensacional! Parabéns e obrigado.
Essa ficha caiu pra mim ano passado, refletindo sobre o que eu considerava, no "meu" gosto, um bom design... mas na minha reflexão não tinha tantas boas referências. ;)
Inclusive, você conhece o Gui Bonsiepe?
Ele tem um livro muito bom: Desing, Cultura e Sociedade, em que fala exatamente disso, mas numa perspectiva mais ampla, do design como "prática de projeto" e do desafio dos países "periféricos" em saírem dessa armadilha da "Colonização by Design"... super vale a leitura!
O texto tá excelente - e essa arte então, fechou com chave de ouro